domingo, janeiro 17, 2010

Lenda do Amor: Da Geração de Eros

Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses entre os quais se encontrava também o filho da Prudência, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar os restos do festim, a Pobreza, e ficou na porta. Ora, Recurso embriagado com o néctar, penetrou no jardim de Zeus e pesado, adormeceu. Foi então que Pobreza o avistou e observando o jovem ali desavisado imaginou imediatamente remediar sua penúria concebendo um filho de Recurso. Deitou-se ao lado do deus e enlaçando-o, ele que mal percebia o que se passava, conseguiu a Pobreza o seu intento e pouco depois deu à luz o filho dessa conjunção fortuita o qual foi chamado Amor. Eis porque, o Amor, ficou companheiro e servo de Afrodite. Gerado no natalício da deusa da beleza, tornou-se amante do belo; e por ser filho de Recurso e da Pobreza, caracteriza sua essência, esta a condição contraditória.

Primeiramente, é sempre pobre. E longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido, enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de truques; e sua natureza não nem mortal nem imortal. No mesmo dia, ora germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que o Amor nem enriquece, nem empobrece, assim como, também está no meio da sabedoria e da ignorância.

* PLATÃO. O Banquete – São Paulo: Abril Cultural, 1979. (coleção Os Pensadores)

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